
A meia-idade não assusta mais como no passado. Já é possível chegar aos 40 não apenas no auge da carreira, mas em plena forma física.
Por Daniela Diniz*
Há apenas uma geração, para a maioria das pessoas a chegada à meia-idade significava enfrentar uma situação paradoxal. Para os que conseguiam manter o emprego e a carreira em ascensão, o topo ficava bem próximo. Ao mesmo tempo, as condições físicas iniciavam uma trajetória decadente — um percurso especialmente acelerado no mundo corporativo, onde estresse e sedentarismo encontravam, e ainda encontram, um ambiente privilegiado. Passar do limite dos 40 quase sempre era uma experiência psicológica assustadora.
Esse quadro começa a mudar rapidamente — pelo menos para quem tem atitude. Pode-se passar dos 40 com a aparência e a disposição de quem ainda não superou os 35. Simples mudanças de hábitos, aliadas a avanços obtidos pela medicina, permitem conjugar o que antes era privilégio de poucos: o auge na produtividade profissional com o vigor da saúde.
A palavra mágica para fazer parte do time dos bem-sucedidos e saudáveis é prevenção. E, a julgar pela multiplicação dos consultórios, muita gente está empenhada em mudar hábitos antigos. Segundo o geriatra Clineu de Mello Almada Filho, da Universidade Federal Paulista, metade de seus pacientes está na faixa dos 30 aos 40 anos. “Eles nos procuram não por se considerar velhos, mas para continuar se sentindo jovens por mais tempo”, diz Almada Filho.
Foi o que ocorreu com o engenheiro paulista Everaldo França, de 44 anos, diretor da consultoria financeira PPS. Aos 30 anos, França foi à procura de um médico que pudesse acompanhá-lo pelo resto da vida e o ajudasse a prevenir os males trazidos pela idade. Na primeira visita ao geriatra, saiu com apenas uma receita de vitaminas. Com o passar dos anos, foi abreviando o intervalo entre um check-up e outro. Prestava mais atenção na alimentação e contava com um forte aliado: o handebal. Mesmo com uma vida agitada, trabalhando mais de dez horas por dia, ele não dispensava os treinos à noite. “Durante 20 anos, o handebal foi a minha válvula de escape”, diz França. “Além do prazer que sentia jogando, o esporte me livrou de alguns sinais típicos da meia-idade.”
Ele se refere ao acúmulo de gordura no corpo, aos problemas com colesterol e até à aparência de cansaço que muitos de seus amigos gradativamente passaram a exibir. Livrou-se também da falta de disposição para qualquer corridinha e da perda de energia no trabalho. “O corpo agüenta desaforo até certo ponto”, diz França. “Chega um momento em que ele cobra o preço do descuido e, então, não dá mais para se esquivar dos cuidados.”
Há maneiras, porém, de impedir que o corpo dê seus sinais de fadiga antes do tempo e de fazer com que os anos passem sem que as pessoas ao lado e o espelho apontem isso. As próximas linhas podem mostrar como prevenir os problemas que costumam nos acompanhar assim que cruzamos a fronteira dos 40 anos.
Bate, bate, bate, coração (colesterol, hipertensão e obesidade)
Vinte anos atrás, Marcos Moreira, diretor da consultoria Premier Marketing e Serviços, assistiu à morte do pai após uma tentativa de recuperar o coração com uma ponte de safena. O pai de Moreira já havia passado por uma cirurgia desse tipo sete anos antes. Mas o primeiro sinal de alerta não foi suficiente para mudar seus hábitos de vida. “Ele continuou fumante, sedentário e não se preocupava com a alimentação. Morreu aos 66 anos”, afirma Moreira, hoje com 48. Segundo ele, tudo que o pai passou serviu de referência para sua própria vida. “Não quero passar pelo mesmo e sei como evitar esse caminho”, diz.
As doenças relacionadas ao coração matam 160 000 brasileiros por ano, segundo o cardiologista Sérgio Timerman, da Fundação Interamericana do Coração. Uma predisposição genética aliada a maus hábitos alimentares é suficiente para aumentar o risco de um ataque cardíaco ou requisitar um controle do colesterol. No caso dos executivos, a cautela deve ser maior. “Ser executivo por si só já é um fator de risco”, diz Timerman. “Geralmente, ele se alimenta mal, vive estressado e não faz exercícios.” Preocupadas com isso, muitas empresas estão estimulando seus funcionários a cuidar da saúde e a manter a forma. Corporações como Pão de Açúcar, Nestlé e bancos como Santander e BankBoston mantêm academias em sua sede — o que proíbe os executivos de usar a falta de tempo como desculpa para o sedentarismo.
Para contribuir ainda mais, os exames que medem o risco de ter problemas do coração estão cada vez mais sofisticados. Até recentemente, bastava manter o nível de LDL (colesterol “ruim”) no sangue abaixo de 130 miligramas por decilitro para escapar da zona de perigo. Hoje, um cálculo baseado em fatores como idade, histórico familiar e pressão sanguínea permite estimar o risco de um infarto nos próximos dez anos. Segundo um estudo recente do Centro de Controle e Prevenção de Doenças, dos Estados Unidos, 37% dos americanos entre 45 e 64 anos apresentam taxas de colesterol elevadas — o dobro da proporção encontrada na faixa de 20 a 44 anos. Isso se deve também ao aumento do número de obesos nos últimos anos, que já somam 300 milhões em todo o mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde.
Apesar dos números assustadores, é possível mudar esse quadro. “Existem apenas três fatores que não podemos mudar: idade, sexo e genética”, diz Timerman. “Em todo o resto, o homem pode interferir.” Moreira, por exemplo, largou o cigarro há mais de dez anos. Mudou os hábitos alimentares e há 12 anos pratica squash regularmente. Alguns problemas surgiram com o tempo, como dificuldade para enxergar de perto e dores musculares. Segundo ele, porém, a idade também trouxe compensações. “O arrojo e a ambição da juventude dão lugar à experiência e à maturidade”, diz Moreira. “Isso nos torna mais seletivos, exigentes e permite um sucesso mais fácil de ser alcançado.”
Espelho, espelho meu (rugas, mancha da pele, calvície e cabelos brancos)
Pode chamar de vaidade pura e simples. Mas quem, afinal, gosta de se olhar no espelho e ver aqueles malditos pés-de-galinha nos cantos dos olhos? Ou reparar que mais alguns fios de cabelos se perderam? Ok. É impossível — e talvez indesejável — fazer o tempo parar. Mas hoje muitas de suas marcas podem ser postergadas. As rugas estão entre elas. Comece mantendo a pele protegida dos raios solares, cuidando da alimentação (diminuindo principalmente amido e açúcar), equilibrando o estresse e fugindo do cigarro. Só a mudança no estilo de vida pode proporcionar alguns anos a menos na imagem do espelho. “Muitos pacientes pensam que rugas e manchas só aparecem por causa da idade”, diz a dermatologista carioca Luci Magalhães, dona de um consultório na Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio de Janeiro. “Na maioria dos casos, o problema não está na idade, mas na alimentação, no sol exagerado e no cigarro.”
Além dos cuidados preventivos, atualmente há inúmeras técnicas para aliviar as marcas que os anos deixaram na pele daqueles que não se cuidaram no passado. Entre os queridinhos dos vaidosos estão as injeções de toxina butolínica (mais conhecida como Botox). Há mais de uma década no Brasil, o Botox é usado para disfarçar sulcos na testa ou entre as sobrancelhas, suavizar linhas de expressão e até vincos na pele do colo – isso tudo sem ter de passar pelo bisturi, o que explica sua grande popularidade.
Apesar de livrar muita gente da mesa do cirurgião plástico e facilitar a vida de quem não tem tempo para se recuperar de uma cirurgia mais detalhada, a aplicação do Botox tem seus riscos. Como tem efeito de paralisar os músculos, se mal aplicada, a toxina pode limitar os movimentos do paciente.
O cuidado estético também deixou de ser visto como uma coisa das mulheres. “Muitos homens na faixa dos 50 anos vêm até a clínica para se sentir mais jovens”, diz Luci. “A principal preocupação deles é recuperar os fios de cabelo perdidos.” A clínica paulista Corplus atende uma média de 25 executivos por mês só para fazer transplante capilar. Segundo o cirurgião plástico Ricardo Lemos, da Corplus, a procura desse tipo de tratamento por executivos aumentou 20% nos últimos três anos. A boa notícia para eles é que a medicina também está avançando nesse campo: pesquisadores estão testando alguns tratamentos que combatam a calvície e que devem estar disponíveis em poucos anos.
Há quem considere importante manter a boa aparência mesmo para fechar um negócio. “A mulher executiva deve mostrar sempre uma imagem de sucesso”, diz Iêda Novais, de 52 anos, diretora da Mariaca e Associados, empresa paulista de recrutamento de executivos. Ao completar 40 anos, Iêda cercou-se de cuidados: adotou o uso diário de protetor solar, passou a fazer manutenção da pele com peeling ou esfoliação, usa cremes dermatológicos e diminuiu a quantidade de carne vermelha na alimentação. Além disso, há mais de dez anos tornou-se assídua jogadora de golfe. Aos 52 anos, Iêda trabalha das 7 da manhã às 6 da tarde (quando as reuniões não prolongam o expediente) e viaja a negócios pelo mundo sempre que necessário. “A maturidade só nos traz vantagens”, diz ela. “É sempre um desafio manter aquilo que você construiu. É só saber envelhecer de acordo com o ritmo do corpo.”
Mulher de fases (menopausa, osteoporose)
A psicóloga paulista Marisa Baltazar havia acabado de completar 43 anos quando entrou na menopausa. “Imediatamente iniciei o tratamento com reposição hormonal”, diz ela, hoje com 49 anos. “Depois de um mês já senti melhoras físicas e psicológicas.” A opção de Marisa seria muito mais popular se as terapias de reposição hormonal — conhecidas como TRH — não estivessem envoltas em controvérsia. A maior ameaça está no aumento do risco de câncer de mama.
Segundo o oncologista gaúcho Bernardo Garicochea, coordenador do serviço de aconselhamento genético do hospital Sírio Libanês, de São Paulo, os estudos mais recentes comprovam maior incidência de câncer em mulheres que fazem a reposição, mas não um aumento da mortalidade. Por esse motivo, na maioria das vezes a reposição é, sim, o melhor remédio.
A alimentação pode ser também uma aliada nessa fase. A inclusão de soja no cardápio feminino pode diminuir significativamente os sintomas mais comuns do período. Enquanto 80% das mulheres americanas e brasileiras sofrem com os sintomas da menopausa, apenas 18% das asiáticas passam pelos incômodos. A explicação para isso está nos hábitos alimentares. Alguns estudos mostram que o consumo de 20 a 40 gramas de soja por dia pode cortar os típicos calores que as mulheres passam nessa fase.
Saber o que comer também pode livrar as mulheres de um fantasma que vem aparecendo mais cedo na vida delas: a osteoporose. Vinte anos atrás, a doença era uma preocupação apenas para quem passava dos 60 anos. Hoje, com o número maior de mulheres que trabalham fora e são sedentárias, a osteoporose está chegando mais cedo. A psicóloga Marisa, por exemplo, identificou a doença aos 43 anos. “Estava com idade óssea de 65″, diz ela. “Tive de mudar a alimentação, acrescentando derivados de cálcio no cardápio, e incluir caminhadas na minha rotina.”
O mal é um problema de saúde pública nos Estados Unidos. Segundo a Fundação Nacional de Osteoporose, 44 milhões de americanos sofrem da doença (30 milhões deles são mulheres). No Brasil, estima-se que 10 milhões sofram da doença. “A melhor prevenção é manter uma alimentação rica em cálcio e fazer exercícios físicos”, diz o ginecologista Rogério Machado, professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí, no interior de São Paulo. “Uma recomendação que pode ser seguida bem antes de se chegar à casa dos 40.”
Vencendo o tabu (câncer de mama e de próstata)
Os avanços da medicina estão encorajando uma mudança de postura em relação a doenças e hábitos encarados como tabus. É o caso do câncer. Atualmente, os médicos estão recebendo muito mais pessoas interessadas em saber antecipadamente da possibilidade de desenvolver tumores. “Há 20 anos, 75% dos casos de câncer de próstata diagnosticados eram incuráveis”, diz o urologista Sami Arap, professor da Faculdade de Medicina da USP. “Agora diagnosticamos 80% dos cânceres como curáveis.” Segundo Arap, por ser uma doença assintomática, o câncer de próstata (incidente sobre 2,7% dos homens) muitas vezes era detectado quando já não havia mais chance de cura. Hoje, com um simples teste de sangue (o PSA) é possível saber se o paciente faz parte do grupo de risco. E a medicina promete mais. Nos próximos cinco anos, com apenas uma picada no dedo os médicos poderão não só identificar a predisposição de o paciente vir a ter câncer de próstata como também saber qual o possível grau do tumor. Isso poderá livrar muitos homens de ter de sujeitar-se ao temido exame de toque retal (ainda fundamental para os que passaram dos 50 anos).
Para as mulheres também há boas notícias no campo da detecção de tumores de mama (mal que acomete 7% das brasileiras). Além de exames convencionais, como mamografia e ultrassonografia, alguns médicos vêm recomendando um exame de DNA para pacientes que apresentam casos da doença em parentes próximos. Por meio do exame, é possível verificar (com antecedência) se há risco de desenvolver a doença e se é necessário colocar a paciente sob vigilância. Os avanços não devem parar por aí. Nos Estados Unidos, o laboratório Eli Lilly está testando a raloxifene, droga para combater a osteoporose que poderá também diminuir o risco de câncer de mama. “Quando uma paciente não se cura totalmente, procuro fazer com que ela tenha a melhor qualidade de vida possível”, diz Garicochea, do hospital Sírio Libanês. “Afinal, em pouco tempo pode surgir um tratamento mais eficaz.”
Enquanto isso não acontece, a recomendação é fazer exames preventivos. E não deixar de seguir os conselhos exaustivamente repetidos pelos médicos: não fumar, manter uma boa alimentação e praticar atividades físicas. A qualidade de vida, agora, e no futuro, depende basicamente de atitude.
(*) É jornalista e editora da revista Você RH (Editora Abril).
Fonte: Portal Exame.
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